Arquivo para novembro, 2010

um olhar de roberto victório (osviralata)

Posted in Uncategorized with tags on novembro 9, 2010 by osviralatacaipira

Casa “Fora do Eixo”, 23h30 de quinta-feira (dia de toda realização iniciática, dia dos espíritos),e foi isso que pudemosver/ouvir desses maravilhosos “viralatas”, cães-sem-dono (ainda bem!) que implodiram o pequeno, cavernoso e introspectivo espaço encravado no coração da velha cidade de Nosso SenhordoBomJesusdeCuiabá. Assim como na Cuiabá, e Brasil colônia, resgatando a efervescência das sonoridades do século XVIII desse imenso país, só que às avessas. Um retorno ao passado no que se refere à expectativa de ouvir o que se produz, agora, já! Impossível ficar imóvel diante da impressionante performance dos integrantes com seus improvisos, seus gestos ritualísticos, sons guturais que vazaram as texturas instrumentais e as “recitâncias” que numa ambiência quase responsórica conectou a todos, seja no palco, seja na plateia (novamente o perfil sonoro do Brasil colônia, das cantorias e da música a serviço de um ofício). Eduardo Ferreira, como um hierofante, é o pivô dessa egrégora que aglutina músicos excepcionais por aventuras sonoro-literárias-performáticas que simbiotizam o universo “viralatístico” como um caldeirão criativo/improvisativo – orgiástico/caótico. Um jogo dual nesta trama conectiva de sonoridades que se traduz a partir da capacidade de cada músico lidar com o caos (criativo) e com a orgia (improvisativa) e a impressionante conexão entre eles a cada performance. Em alguns momentos tem-se a impressão de uma ambiência ritual – pelo envolvimento gestual – regada a sonoridades; a música, nesses momentos, impressionantemente, passa para segundo plano sem perder a importância. Esse é o caminho! Esse é o viés para uma música que ultrapassa os limites impostos pela máquina que ensina o que é “bom” para os ouvintes. Osviralata, Eduardo Ferreira e os apóstolos/ouvintes que estavam na quinta-feira iniciática na velha Cuiabá – conectados por séculos de sonoridades esquecidas – se tornaram um só organismo sonoro, seja tocando, ou envolvidos pelas vibrações que ocupavam o pequeno espaço-claustro, como as vísceras de um monastério que absorvem as sonoridades do entorno sagrado. A cada fala, a cada acorde das incríveis violas caipira, a cada improviso virtuosístico da guitarra, a cada respiração e inflexão dos cantos/recicantos, sentia-se a força do grupo não como um mero aglutinar de sonoridades avulsas e sim como percursos individuais que simbiotizavam-se em texturas polifônicas complexas, encorpadas pela pujante rítmica imposta pelo baixo e pela bateria. Ótimos! Enfim, uma noite fantástica de sonoridades envolventes para os ouvintes/monges que decidiram ouvir o velado entorno da cidade secular pela performance de “osviralata”.
Roberto Victório é mestre em composição e doutor em etnomusicologia